terça-feira, 4 de setembro de 2018

A flor da pele


Vou deslizando meus dedos por essa estrada sedosa,
Em cada curva que passo, um odor, novas surpresas:
É tua pele macia, horizonte de belezas,
Delícias de minha vida, companheira, saborosa...

Em tua cútis, a boca rastejo, de sul a norte,
Provocando em cada pêlo um gostoso arrepio,
E sinto que te contorces como a gazela no cio,
E te envolvo, faminto, e te abraço bem forte...

Inexplicáveis momentos de ternura, de paixão,
De corpos embriagados, em transe de comoção,
Com gemidos e suspiros saltando à flor da pele...

E prossigo no caminho de mistérios tão infindos,
Amando teu ser completo, fitando teus olhos lindos,
Até que afinal, num beijo, meu prazer tua boca sele...

por Piero Valmart
fotografia de autor desconhecido

terça-feira, 31 de julho de 2018

Língua vital



do que é que o corpo fala que idioma nenhum participa?
que nem o gesto mais sutil apreende?
só o toque no toque, de fato, transmite
os mistérios profundos que nos movem as entranhas

seria o sexo a única forma de comunicação real?
capaz de transpor fronteiras entre seres
e uni-los na verdadeira língua materna
sabedoria de gaia, pacha mama, ciclo vital

idioma que todos nascemos sabendo
e por não saber da própria sabedoria
acabamos, com esforço, esquecendo

chega um dia em que tal lembrança nos falta
e buscamos nas línguas e linguagens todas
a essência perdida que nunca carregam

por Bruna Escaleira
fotografia de autor desconhecido

terça-feira, 24 de julho de 2018

Tentación


Toma mi mano un momento,
será lo mejor que hayas vivido.
Será más que sólo un recuerdo,
serán tus deseos prohibidos.

Toma tu amor y tu odio,
tu violencia, tu vigor.
Toma tu cuerpo y tu alma,
y hazlos satisfacción.

¡Pues aquí no hay amor!
Sólo se vive de la pasión, del instante.
¡Aquí no hay luz!
Sólo necesitas sentir y entregarte.

Toma tu pudor y tu abstinencia,
tu inocencia, tu virginidad.
Toma tu Dios y sus reglas
¡Abandónalas y déjalas atrás!

por Arcanvm (Alejandro)
fotografia de autor desconhecido

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Do desejo X



Pulsas como se fossem de carne as borboletas.
E o que vem a ser isso? perguntas.
Digo que assim há de começar o meu poema.
Então te queixas que nunca estou contigo
Que de improviso lanço versos ao ar
Ou falo de pinheiros escoceses, aqueles
Que apetecia a Talleyrand cuidar.
Ou ainda quando grito ou desfaleço
Advinhas sorrisos, códigos, conluios
Dizes que os devo ter nos meus avessos.
Pois pode ser.
Para pensar o Outro, eu deliro ou versejo.
Pensá-LO é gozo. Então não sabes? INCORPÓREO É O DESEJO.

por Hilda Hilst
fotografia de autor desconhecido

terça-feira, 3 de julho de 2018

Prazer



Sonhei esta noite... que a tua pele me envolvia por completo...
Senti a tua língua sofrega, intensa a vaguear pelo meu sexo...
Senti o meu corpo a relaxar, a abrir-se ao teu desejo...
Soltei um grito poderoso e pedi mais... a tua mão a brincar com o meu seio, a tua língua a entrar em mim, exigente...
O meu corpo elevou-se num arco para que me visses inteira...
Cerrei as mãos, porque o prazer entranhou-se em mim de tal maneira que fiquei dorida, exausta.
Gritei novamente e senti-te a preencher cada cantinho secreto do meu corpo...
E, depois... sorri-te...

de uma leitora anónima
fotografia de autor desconhecido

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Do desejo IX



E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

por Hilda Hilst
fotografia de Konstantin Lelyak

quinta-feira, 28 de junho de 2018

O apanhador no campo



Fruta e mulher no mesmo pé de caqui
no qual espantando os passarinhos eu trepo
para apanhar como um garoto a fruta
e apreciar, comendo-a lá no alto, a mulher
que ficou lá embaixo me esperando subir
e agora vejo se mexendo entre as folhas,
com seus olhos de mel, seus ombros secos,
enquanto me contorciono todo subindo
entre línguas de sol, roçar de galhos,
para alcançar e arremessar para ela,
no ponto mais extremo, o caqui mais doce.

por Leonardo Fróes
fotografia de autor desconhecido