quarta-feira, 11 de julho de 2018

Do desejo X



Pulsas como se fossem de carne as borboletas.
E o que vem a ser isso? perguntas.
Digo que assim há de começar o meu poema.
Então te queixas que nunca estou contigo
Que de improviso lanço versos ao ar
Ou falo de pinheiros escoceses, aqueles
Que apetecia a Talleyrand cuidar.
Ou ainda quando grito ou desfaleço
Advinhas sorrisos, códigos, conluios
Dizes que os devo ter nos meus avessos.
Pois pode ser.
Para pensar o Outro, eu deliro ou versejo.
Pensá-LO é gozo. Então não sabes? INCORPÓREO É O DESEJO.

por Hilda Hilst
fotografia de autor desconhecido

terça-feira, 3 de julho de 2018

Prazer



Sonhei esta noite... que a tua pele me envolvia por completo...
Senti a tua língua sofrega, intensa a vaguear pelo meu sexo...
Senti o meu corpo a relaxar, a abrir-se ao teu desejo...
Soltei um grito poderoso e pedi mais... a tua mão a brincar com o meu seio, a tua língua a entrar em mim, exigente...
O meu corpo elevou-se num arco para que me visses inteira...
Cerrei as mãos, porque o prazer entranhou-se em mim de tal maneira que fiquei dorida, exausta.
Gritei novamente e senti-te a preencher cada cantinho secreto do meu corpo...
E, depois... sorri-te...

de uma leitora anónima
fotografia de autor desconhecido

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Do desejo IX



E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

por Hilda Hilst
fotografia de Konstantin Lelyak

quinta-feira, 28 de junho de 2018

O apanhador no campo



Fruta e mulher no mesmo pé de caqui
no qual espantando os passarinhos eu trepo
para apanhar como um garoto a fruta
e apreciar, comendo-a lá no alto, a mulher
que ficou lá embaixo me esperando subir
e agora vejo se mexendo entre as folhas,
com seus olhos de mel, seus ombros secos,
enquanto me contorciono todo subindo
entre línguas de sol, roçar de galhos,
para alcançar e arremessar para ela,
no ponto mais extremo, o caqui mais doce.

por Leonardo Fróes
fotografia de autor desconhecido

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Do desejo VIII



Se te ausentas há paredes em mim.
Friez de ruas duras
E um desvanecimento trêmulo de avencas.
Então me amas? te pões a perguntar.
E eu repito que há paredes, friez
Há molimentos, e nem por isso há chama.
DESEJO é um Todo lustroso de carícias
Uma boca sem forma, em Caracol de Fogo.
DESEJO é uma palavra com a vivez do sangue
E outra com a ferocidade de Um só Amante.
DESEJO é Outro. Voragem que me habita.

por Hilda Hilst
fotografia de autor desconhecido

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Do desejo VII



Lembra-te que há um querer doloroso
E de fastio a que chamam de amor.
E outro de tulipas e de espelhos
Licencioso, indigno, a que chamam desejo.
Há o caminhar um descaminho, um arrastar-se
Em direção aos ventos, aos açoites
E um único extraordinário turbilhão.
Porque me queres sempre nos espelhos
Naquele descaminhar, no pó dos impossíveis
Se só me quero viva nas tuas veias?

por Hilda Hilst
fotografia de autor desconhecido

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Erótico puritano



As pontas dos meus seios apontam para o céu
inchados e duros
pequenos e brancos
reluzem e gritam
enquanto as estrelas queimam e umedecem
meus santos orifícios
com seus toques inesperados.
sou cega, muda, espasmódica.
pernas abertas por um mundo melhor.

por Niandra LaDez
fotografia de autor desconhecido