quinta-feira, 24 de maio de 2018

Do desejo I



Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

por Hilda Hilst
fotografia de Ruslan Lobanov

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Mademoiselle Furta-Cor (Poema 3)



Eu avanço, te abocanho,
a cama range, o corpo ruge
            vermelho!
vivo num relance as nuances
de um arco-íris de tafetá
ferido no espaço do instante
de seu veloz delírio:

e caço o seu rosto em cada cor

            em cada gama

a cada gomo que esmago e engulo
eu te provo, e bebo

            as gotas do seu gosto

e mastigo o teu sabor
calcando sob mim
o gesto escancarado
do seu sangue sem som,
mas que, entretanto, em entretons

            grita.

por Armando Freitas Filho
fotografia de autor desconhecido

terça-feira, 15 de maio de 2018

Mademoiselle Furta-Cor (Poema 2)



Por esta fresta te espreito
Por esta fenda te desvendo

Por esta fresta
            cravo
sonda contra esponja,
e babo
            e te penetro
teso e reto, e por inteiro
o seu corpo se entreabre:
porta e perna, caixa e coxa.

Por esta fenda
            tenda
de pele que se franze,
e rasga
            eu me adentro
feito de espera e de esperma:
e espremo — te aperto — e exprimo
toda a cor da carne do amor que escrevo.

Por esta fresta me espreito
Por esta fenda me desvendo.

por Armando Freitas Filho
fotografia de Josef Breitenbach

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Dans mes rêves



J'aimerais bien voir votre...
Madame,
S’il vous plaît,
Je suis quasiment convain...
Madame, qu’il me plaît.

Et si vous êtes à demi-nue
Pourquoi pas
J’aimerais
Avoir un petit aperçu
De vos seins et après...

Glisser ma main sous les tissus
Les dessous
Les effets
Et me réjouir bien entendu
De l’effet qu’elle vous fait.

Puis après cette douce entrevue,
Madame
J'aimerais
Goûter à ce fruit défendu
D'où je viens où je vais.

par Jipébé
photographie de Ruslan Lobanov

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Mademoiselle Furta-Cor (Poema 1)



Eu conheço o seu começo:
        ponto e novelo,
meada de mel e langor
        de lentos elos
que a minha língua lambe
        no calor despido,
no meio das suas pernas:
        anéis de cabelos,
anelos e nós se desmancham
        em nada ou nódoa
por todo o lençol do corpo
        nu e amarrotado:
nós aqui somos todos laços
        e nos rasgamos
devagar — poro por poro;
        rumor de sedas
ou de uma pele toda feita
        de suor e suspiro:
eu soluço a cada susto seu
        que nos dissolve.

por Armando Freitas Filho
fotografia de autor desconhecido

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Iniciação amorosa



A rede entre duas mangueiras
balançava no mundo profundo.
O dia era quente, sem vento.
O sol lá em cima,
as folhas no meio,
o dia era quente.
E como eu não tinha nada que fazer vivia
namorando as pernas morenas da lavadeira.

Um dia ela veio para a rede,
se enroscou nos meus braços,
me deu um abraço,
me deu as maminhas
que eram só minhas. A rede virou,
o mundo afundou.

Depois fui para a cama
febre 40 graus febre.
Uma lavadeira imensa, com duas tetas
imensas, girava no espaço verde.

por Carlos Drummond de Andrade
fotografia de Bunny Yeager

Um pedido de desculpas

Peço desculpa às minhas leitoras por este longo interregno.
Afazeres profissionais mantiveram-me afastado do vosso contacto.
Espero poder compensar-vos durante as próximas semanas.

Um beijo
Pedro M.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

A pele e o vento



A todas as minhas leitoras, com os meus votos de um Ano de 2018 cheio de prazer!!

Um beijo
Pedro M.


A pele e o vento
Quando a madrugada vem
e o Vento sopra
a pele em poesia desabrocha
dizendo nua os versos de
arrepios.

E se o Vento sopra sussurrante
como uma brisa morna estremecendo
os pêlos
a Pele, que é poesia,
mergulha em desvarios
e canta para a lua seus versos
de delírios
e espera suplicante o toque
redentor.

(até que o vento, em sopros
de amor
se deita sobre a Pele
e suas mãos segura.)

então a Pele, agora em loucura
sente os cabelos longos do Vento
lhe fazerem cócegas; ouve os
sussurros do Vento em suas costas
sente sobre si o peso do desejo

e cândida, rende-se;
lânguida, deita-se;
ávida, molha-se;

sente nas costas o peso
do Vento
e treme;
agita-se;
inunda-se;
e sonha;

tem dentro de si o corpo
do Vento
e tranca-se;
e move-se;
e geme;
e goza
(grávida, imensa, grata, plena);

quando a madrugada vem
e o Vento sopra
a Pele em poesia desabrocha
e a vida inteira fica
diferente.

por Nálu Nogueira
fotografia de Oleksiy Maksymenko