sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Beija-me, minha alma, doce espelho e guia


Beija-me, minha alma, doce espelho e guia,
beija-me, acaba, dá-me este contento,
e cada beijo teu engendre um cento,
sem que cesse jamais esta porfia.

Beija-me cem mil vezes cada dia,
pra que, chocando alento com alento,
saiam deste int’rior contentamento
doce suavidade e harmonia.

Ai, boca, venturoso o que te toca!
Ai, lábios, ditoso é o que vos beija!
Acaba, vida, dá-me este contento,
dá-me já tal gosto com tua boca.

Beija-me, vida: tudo em mim lateja.
Aperta, morde, chupa, mas com tento.

traduzido por José Bentos
fotografia de autor desconhecido

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Absolver (com algumas coisas de Helberto Hélder)


Chama-se sexo
a uma parte do corpo
como se todo o corpo
as mãos os pés a cabeça
não fossem também sexo
o pênis a vagina
os testículos as maminhas
são frágeis
vulneráveis
estão expostos
à crueldade
são flores
ou musgos
posso estar nua e ser casta
não tenho nada de freira viciosa
e devassa
com toda a minha atenção
toco-te
dou-te os meus sentidos
os meus sentimentos
sinto muito
ter estado muito contigo
é uma coisa boa
que melhora o mundo
que o embeleza
agradeço ter-te encontrado
e ter feito o que fiz contigo
com a cabeça nas mãos
e os olhos cheios de lágrimas
sonho contigo comigo

por Adília Lopes
fotografia de autor desconhecido

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Inocente pecado


Esta noche, en que hay mas dudas de amor,
por tu grito mudo, absorto, y destrozado.
En que el herrumbre de ébano y madera
el no corresponder a mi amor ha confirmado.
Ésta noche en que mi talla se cincela
con masilla corroída en mis huesos destemplados.
Esta noche, es la noche, en que debo liberar a los esclavos,
que sean cimarrones en los montes de nativos,
perdidos entre brisas del eclipse libertario.

Tu silencio ha sido témpano, páramo de tu sexo,
que a mi alma va impidiendo sus orgasmos,
Lujuria muerta en los lirismos de unos versos
que había dejado reposando entre tus vados.

Censura de mis tiempos de anarquista.
Rebelado guerrillero de los sueños programados,
tu extremada quietud de campana enmudecida,
a mi templo ya vacío, sin dios ha consagrado,
el rezo que calla el rosario de tus huellas,
y las velas que iluminan mi inquietud de enamorado.

Íntima cumbre, de palabras de cordel y ligadura,
mística perla que pasaste rodando como un rastro,
a la pena de un poeta le tiraste una moneda,
y su ruido fue explosión en el fondo de su vaso.

Ninfa de aleluya débil, crisma vital de mi sagrario,
la luna se fue despotricando en mis oscuros iris,
en la tardé que perdí... la inocencia del pecado.

por Walter Faila
fotografia de Ruslan Lobanov

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Tudo o que eu te dou (extracto)


Sentado na poltrona, beijas-me a pele morena
Fazes aqueles truques que aprendeste no cinema
Mais peço-te eu, já me sinto a viajar
Pára, recomeça, faz-me acreditar
Não, dizes tu, e o teu olhar mentiu
Enrolados pelo chão no abraço que se viu
É madrugada ou é alucinação
Estrelas de mil cores, ecstasy ou paixão
Hum, esse odor, traz tanta saudade
Mata-me de amor ou dá-me liberdade
Deixa-me voar, cantar, adormecer

por Pedro Abrunhosa
fotografia de Karen Abramyan

domingo, 21 de agosto de 2022

O amor é finalmente


O amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias
Uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um reboliço de ancas,
quem diz outra coisa é besta.

por Gregório de Matos
fotografia de autor desconhecido

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Pacto secreto


Sua pele aveludada é o meu pergaminho
Minha língua, qual caneta, por ela faz caminho
Redigindo na prancheta uma encíclica de delícias
Um pacto assinalado, firmamento de carícias
Rubrico em seu umbigo com eroticidade
Nas trilhas dos pentelhos, escrevo felicidade
Destilo na caligrafia, pornográfico-beijo-grego
Te risco e rabisco, puro desassossego
Componho um manuscrito, com segredos virginais
Na pauta deito o dedo, nas linhas horizontais
Aperto e acendo a letra, melhorando a edição
A ponta do polígrafo, é puro comichão
E se não bastar o verso, escrevo no reverso
Vaginal, anal, oral, o contrato é perverso
Imprimindo força, dobrando faço fenda
Grafando qual bacante, desenho em sua senda
Na libido do contrato, destilo minha pulsão
Revelo meus fetiches, te levo pro porão
Na gruta dionisíaca dou asas à fantasia
Na fenda como a fruta, gostosa parceria...

por Cláudio Andrade
fotografia de autor desconhecido

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Ilusión marina


(A Rosamaría)

Tu lengua,
    pececillo inquieto en mi rostro.
Tu boca,
    ostra que juega con mis labios.
Tu piel,
    arena ardiente sobre mi cuerpo todo.
Tu voz,
    canto de sirena que me llama y espera.
Mi piel y mi alma responden
pero tú, sirena mía,
te esfumas con el sol
al bajar la marea.

por Amparo Jimenez
fotografia de autor desconhecido