quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Teu corpo solto


Abandonado ao êxtase de estar
Tuas curvas
Tortuosas
Delirantes
São varridas pelo tecido
Que te envolve a pele
Que desliza em cantiga
Acalanto
Tua carne desnuda
Túrgida
Alva
Trêmula
Palpitar de fruta fresca
Teus olhos; iluminam o quarto
Tua boca tece o silêncio
Teus ouvidos segredam notas
Teus seios macios
Salientes
Calientes
Doces
Que minhas mãos envolvem
A descobrirem
Os róseos medalhões
Que tocam o céu
O céu de minha boca
Faminta
Sedenta
Tuas pernas
Colunas
Arco de flores
Roliças
Se abrem
Feito portais de mistérios
Intemporais
Leutos
Descerram
Imbecilizado vislumbro
Tua corbelha de flores
Flor de lótus
Pérola oculta
Tua Rosa que desabrocha
Tua flor que aflora
Beijo teus vermelhos lábios
Longamente
Vasculho essa mística boca
Entre doces pétalas
Dela
Extraio o néctar
Polinizo assim minha garganta
Mas o desejo
De cobri-la
De conquistá-la
Feito guerreiro
Só e derradeiro...
Numa fusão de corpos
de suor
de carne
de calor
Meu velo de couro
Devagar
Invade tua rubra taça
Tange
dilacera
deflora tua flor que aflora
Possui tuas entranhas
latente pulsa
Impulsa
Entre sussurros desconexos
E imagens a fins
Derramo o leite dos Deuses
E transbordo
Teu cálice de Amor.

por Lui Bucallon
fotografia de Ruslan Lobanov

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Canção erótica

Alegria é este pássaro que voa
da minha boca à tua. É esse beijo.
É ter-te nos meus braços toda nua.
Sentir-me vivo. E morto de desejo.

Alegria é este orgasmo. Esta loucura
de estar dentro de ti. E assim ficar.
Como se andasse perdido e à procura
de possuir-te.

E possuir-te devagar...

por Joaquim Pessoa
fotografia de autor desconhecido

quinta-feira, 14 de julho de 2016

A empreza nocturna (excertos)


Tal fogo em mim senti, que de improviso
Sem nada lhe dizer me fui despindo
Te ficar nu em pelo, e o membro feito
[...]
Nise cheia de susto e casto pejo
Junto a mim sentou-se sem resolver-se
Eu mesmo a fui despindo, e fui tirando
Quanto cobria seu airoso corpo
Era feito de neve: os ombros altos
O colo branco, o cu roliço e branco
A barriga espaçosa, o cono estreito
O pentelho mui denso, escuro e liso
Coxas piramidais, pernas roliças
O pé pequeno... oh céus! Como és formosa

por Manuel Maria Barbosa du Bocage
fotografia de autor desconhecido

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Liquefação

Sou líquida, abundante
entre as pernas
e as retinas

esgueiro-me nas esquinas
dos desejos
fugidios

cozinho em banho-maria
meus cios
e tormentas

espalho meus gozos
em rosas
e em espinhos

líquida, embebida
e regurgitada

(saciada e exaurida...
entre o formicida e a espada)

por Cefas Carvalho
fotografia de autor desconhecido

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Não estás a meu lado


Virilha contra virilha
reconstruo o meu corpo
colado ao teu. Choro.
Não estás a meu lado.
Virilha contra nádega
asas de salvação efémera
reconstruo o teu corpo
junto ao meu. Choro.
Sem os meus braços
envolvendo-te a cintura,
sem as tuas pernas no meu pescoço,
sem a tua mão moldando-se
ao meu ventre
choro: não estás a meu lado.
Sem a tua boca
no meu peito, a tua língua
no meu sexo, os teus seios
soltos, desenfreados
choro: não estás a meu lado.
Sem as tuas fendas
e lagos sou um pobre animal
desamparado, e choro
sobre o teu ninho nos lençóis
em que não posso derramar
o olhar o sémen as palavras
de quando estás a meu lado.

por Casimiro de Brito
fotografia de autor desconhecido

terça-feira, 7 de junho de 2016

Glosa a Providência

Santos pecados...
cometidos
(ou sufocados?!)
às mãos de Manuela!

Terá Satanás previsto,
a audácia,
o tamanho risco
de confiar em mãos alheias
tal capacidade de tocar...?!

de uma leitora anónima
fotografia de Mikhail Nekrasov

terça-feira, 24 de maio de 2016

Providência

Quando me perco no aperto
do recinto dos amores ateus,
logo sinto as mãos de Deus
pelas mãos de Manuela.

Quando me salvo no cenário
do santuário dos amores em paz,
tocam-me as mãos de Satanás
pelas mãos de Manuela.

por Saulo Pessato
fotografia de autor desconhecido