segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Canção erótica

Alegria é este pássaro que voa
da minha boca à tua. É esse beijo.
É ter-te nos meus braços toda nua.
Sentir-me vivo. E morto de desejo.

Alegria é este orgasmo. Esta loucura
de estar dentro de ti. E assim ficar.
Como se andasse perdido e à procura
de possuir-te.

E possuir-te devagar...

por Joaquim Pessoa
fotografia de autor desconhecido

quinta-feira, 14 de julho de 2016

A empreza nocturna (excertos)


Tal fogo em mim senti, que de improviso
Sem nada lhe dizer me fui despindo
Te ficar nu em pelo, e o membro feito
[...]
Nise cheia de susto e casto pejo
Junto a mim sentou-se sem resolver-se
Eu mesmo a fui despindo, e fui tirando
Quanto cobria seu airoso corpo
Era feito de neve: os ombros altos
O colo branco, o cu roliço e branco
A barriga espaçosa, o cono estreito
O pentelho mui denso, escuro e liso
Coxas piramidais, pernas roliças
O pé pequeno... oh céus! Como és formosa

por Manuel Maria Barbosa du Bocage
fotografia de autor desconhecido

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Liquefação

Sou líquida, abundante
entre as pernas
e as retinas

esgueiro-me nas esquinas
dos desejos
fugidios

cozinho em banho-maria
meus cios
e tormentas

espalho meus gozos
em rosas
e em espinhos

líquida, embebida
e regurgitada

(saciada e exaurida...
entre o formicida e a espada)

por Cefas Carvalho
fotografia de autor desconhecido

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Não estás a meu lado


Virilha contra virilha
reconstruo o meu corpo
colado ao teu. Choro.
Não estás a meu lado.
Virilha contra nádega
asas de salvação efémera
reconstruo o teu corpo
junto ao meu. Choro.
Sem os meus braços
envolvendo-te a cintura,
sem as tuas pernas no meu pescoço,
sem a tua mão moldando-se
ao meu ventre
choro: não estás a meu lado.
Sem a tua boca
no meu peito, a tua língua
no meu sexo, os teus seios
soltos, desenfreados
choro: não estás a meu lado.
Sem as tuas fendas
e lagos sou um pobre animal
desamparado, e choro
sobre o teu ninho nos lençóis
em que não posso derramar
o olhar o sémen as palavras
de quando estás a meu lado.

por Casimiro de Brito
fotografia de autor desconhecido

terça-feira, 7 de junho de 2016

Glosa a Providência

Santos pecados...
cometidos
(ou sufocados?!)
às mãos de Manuela!

Terá Satanás previsto,
a audácia,
o tamanho risco
de confiar em mãos alheias
tal capacidade de tocar...?!

de uma leitora anónima
fotografia de Mikhail Nekrasov

terça-feira, 24 de maio de 2016

Providência

Quando me perco no aperto
do recinto dos amores ateus,
logo sinto as mãos de Deus
pelas mãos de Manuela.

Quando me salvo no cenário
do santuário dos amores em paz,
tocam-me as mãos de Satanás
pelas mãos de Manuela.

por Saulo Pessato
fotografia de autor desconhecido

sexta-feira, 18 de março de 2016

Baptismo


Para atrasar a morte vamos abrir a noite
com música de jazz
Percorrê-la depois
num barco de borracha
Celebrar o segredo...
Enforcar a memória
Descobrir de repente
uma ilha que nasce dentro do teu vestido
Chamar-lhe Madrugada
Adormecer contigo

por David Mourão-Ferreira
fotografia de Ruslan Lobanov
(sugestão de uma leitora anónima)