terça-feira, 28 de setembro de 2021

A espada


É no teu silêncio que escuto o mar.
É na tua imobilidade que me quebro
onda brava que a seguir se esmaga
rebelde de branco e maresia.

Vem, corpo aceso, boca de alegria
beija-me com a sede que trazes e trava em mim
a luta na pele onde, mortas
só as sombras se levantam para ser roupa
como as palavras me são grito e tempestade
solidão ou pedra de arremesso
baladas de desencanto.

Vem e enche a minha esperança
ou abate em mim a tua fúria e verte,
acre, a agonia ao soar da minha espada.

Vem e farei de ti o reino, o céu, a profundidade.

Vem e arde no meu fogo.

por Edgardo Xavier (in Insubmisso Rumor)
fotografia de autor desconhecido

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

A Sésta


Pierrot escondido por entre o amarello dos gyrassois espreita em cautela o somno d'ella dormindo na sombra da tangerineira. E ella não dorme, espreita tambem de olhos descidos, mentindo o sôno, as vestes brancas do Pierrot gatinhando silencios por entre o amarelo dos gyrassois. E porque Elle se vem chegando perto, Ella mente ainda mais o sôno a mal-resonar.

Junto d'Ella, não teve mão em si e foi descer-lhe um beijo mudo na negra meia aberta arejando o pé pequenino. Depois os joelhos redondos e lizos, e já se debruçava por sobre os joelhos, a beijar-lhe o ventre descomposto, quando Ella acordou cançada de tanto sôno fingir.

E Elle ameaça fugida, e Ella furta-lhe a fuga nos braços nús estendidos.

E Ella, magoada dos remorsos de Pierrot, acaricia-lhe a fronte num grande perdão. E, feitas as pazes, ficou combinado que Ella dormisse outra vez.

por Almada Negreiros
fotografia de autor desconhecido

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Maria atravessou o regato


Maria atravessou o regato,
molhou a barra do vestido.
Na água deixou o retrato
de tudo o que estava escondido.

texto de autor desconhecido
fotografia de autor desconhecido

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Extorso


Quando chega a madrugada,
vai-se embora a sensatez,
ela se entrega por quase nada
e me chantageia com nudez;

E, se prende a luz do meu olhar
no meio das pernas da noite a meio,
minha Lua cede e convém brilhar
nas cores e forma do seu seio...

por Saulo Pessato
fotografia de autor desconhecido

terça-feira, 22 de junho de 2021

Quando desejos outros é que falam


Quando desejos outros é que falam
e o rigor do apetite mais se aguça,
despetalam-se as pétalas do ânus
à lenta introdução do membro longo.
Ele avança, recua, e a via estreita
vai transformando em dúlcida paragem.

Mulher, dupla mulher, há no teu âmago

ocultas melodias ovidianas.

por Carlos Drummond de Andrade
fotografia de autor desconhecido

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Quítate las bragas...

― quítate las bragas
― aquí?
― y abre un poco las piernas
― estás loco? ¡¡nos verán!!
― solo te veo yo
― ya estoy húmeda

texto de autor desconhecido
fotografia de Ruslan Lobanov

sexta-feira, 4 de junho de 2021

A minha boca


a minha boca
tem tanta fome da tua
a minha língua
tem tanta sede da tua
a minha boca
tem tanta tesão dos teus

os meus dedos nervosos
percorrem o meu sexo
verticalidade lúbrica, orgânica
outra e outra vez
perfilado, aprumado, em vão
de tanto ansiar pelo teu próprio vão
elísio onde a minha volúpia se espraia

doidos os meus dedos de não poderem
desfiar o teu cabelo
de eu não o poder cheirar
como quando encho o peito e os pulmões
do teu perfume e só isso me acalma
de não poderem circundar a seda
dos teus seios-frutos de abocanhar
a minha sede novamente

os meus dedos nutam pela tua pele
escorregam pela duna da tua barriga morna
como quem atravessa um deserto
os meus beijos tontos de tanto procurar de beber
os meus dedos perdidos por aí abaixo
loucos de quererem novamente
aflorar os teus lábios
encharcados com cio
a minha sede outra vez, porra

os meus dedos extraviados
quando não te têm
anelam de não te poder anelar
ávidos de tanto te quererem
de tanto quererem entrar em ti invasores
como magotes de guerreiros sôfregos
irrompendo pelas tuas meias ameias muralha
que se abatem de repente
e toda tu te entregas numa batalha
que se vence apenas derribando
os nossos próprios bastiões e baluartes
penetro enfim o paço de dedos bacamartes
procurando-te por dentro
acordando o teu sentir, o teu pulsar
despoletando o teu arfar, o teu prazer
e o meu prazer de te dar prazer
os meus dedos gostam
que todo o teu corpo exulte de deleite
arqueado e convulso
os meus dedos e as minhas mãos
ufanam quando te agarram e pegam em ti
jactantes de sentir os teus sismos internos
jorrarem em espasmos, gemidos e gritos
e réplicas repetidas
os meus dedos adoram que não te retenhas
os meus dedos querem que te venhas
e explodas de gozo e mil orgasmos
e que todos os teus tsunamis se derramem
na minha boca e na minha garganta rouca
como um rio furioso no seu desfiladeiro
até se desfazer na sua foz
naturalmente

o meu sexo turgescente, latejante
alucinado, erguido, rijo, em riste, vibrante
quando procura os teus lábios e a tua boca
e tu finalmente a agarrá-lo
com firmeza e convicta
de que sabes exactamente
o que fazes e o que queres
fechas sobre ele a tua mão pequenina
acaricia-lo, como se o despisses lentamente
e afunda-lo de um só trago
eu deixo ir e vir com vontade
com força, sem clemência
tu suplicas indulgência
qual remissão dos pecados, meu amor?
eu acalmo-me, tento, não consigo
inchado cheio impetuoso
de precisar de me devorares com doçura
de te sentir de língua molhada em mim
novamente e mais uma vez e sempre
estoura o meu plectro e o meu estro
como a minha seiva em ti
sexus plexus nexus

e finalmente fodemos
que nem danados
como se não houvesse
hoje nem amanhã
nem a serpente nem a maçã
e só descansamos no estuário
onde as nossas águas e lumes
se juntam já mansos e quiescentes
serenando rutilantes de luz
para além do amor e do querer
para lá do desejo e da vontade
algures no fim do prazer
como se o prazer
pudesse ter um outro fim
que não fosse o próprio prazer.

por José Luís Correia
fotografia de autor desconhecido