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segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Negra



por uma nesga
feita com unha e fúria
eu te descubro

e me embrenho em sua grenha
selva de seiva que ferve
e espuma e chupa

o que de mim escapa: jato
ejaculado gesto
ou projétil que no tenro

se enterra
e entra: entre, na entranha
no carbono do escuro

garatuja o gozo que no fundo
se abre
e berra, decalque de luz, que fura

o negrume úmido que você
mucosa, encerra
corpo de crepe, polpa e grito

crua garganta da vagina
grelo vermelho
que lateja em nua boca de carne

por Armando Freitas Filho
fotografia de autor desconhecido

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Mademoiselle Furta-Cor (Poema 3)



Eu avanço, te abocanho,
a cama range, o corpo ruge
            vermelho!
vivo num relance as nuances
de um arco-íris de tafetá
ferido no espaço do instante
de seu veloz delírio:

e caço o seu rosto em cada cor

            em cada gama

a cada gomo que esmago e engulo
eu te provo, e bebo

            as gotas do seu gosto

e mastigo o teu sabor
calcando sob mim
o gesto escancarado
do seu sangue sem som,
mas que, entretanto, em entretons

            grita.

por Armando Freitas Filho
fotografia de autor desconhecido

terça-feira, 15 de maio de 2018

Mademoiselle Furta-Cor (Poema 2)



Por esta fresta te espreito
Por esta fenda te desvendo

Por esta fresta
            cravo
sonda contra esponja,
e babo
            e te penetro
teso e reto, e por inteiro
o seu corpo se entreabre:
porta e perna, caixa e coxa.

Por esta fenda
            tenda
de pele que se franze,
e rasga
            eu me adentro
feito de espera e de esperma:
e espremo — te aperto — e exprimo
toda a cor da carne do amor que escrevo.

Por esta fresta me espreito
Por esta fenda me desvendo.

por Armando Freitas Filho
fotografia de Josef Breitenbach

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Mademoiselle Furta-Cor (Poema 1)



Eu conheço o seu começo:
        ponto e novelo,
meada de mel e langor
        de lentos elos
que a minha língua lambe
        no calor despido,
no meio das suas pernas:
        anéis de cabelos,
anelos e nós se desmancham
        em nada ou nódoa
por todo o lençol do corpo
        nu e amarrotado:
nós aqui somos todos laços
        e nos rasgamos
devagar — poro por poro;
        rumor de sedas
ou de uma pele toda feita
        de suor e suspiro:
eu soluço a cada susto seu
        que nos dissolve.

por Armando Freitas Filho
fotografia de autor desconhecido

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Entre lençóis


Envoltos pela névoa de linho
os amantes se olham
indescobertos...

Envoltos por sins e temores
os amantes se tocam
cautelosamente...

Envoltos por olhos ardentes...
os amantes se desejam
misteriosamente...

Envoltos... no quarto fechado
há um não sobrar de
espaço para dois

As palavras sussurram delicadamente
prazeres inconfessáveis e não ditos
Mãos espalmadas em busca de espaço
desafiando as leis da física...
Pernas, ora trançadas ora retesadas...
querendo quebrar todos os limites
Bocas em beijos, em cada milímetro...
engolindo toda a possível resistência

Entre lençóis,
os amantes se esquecem
eternamente do tempo...

Para quê tempo?
se, entre lençóis, eles
vivem tão intensamente?...

E... bem cá entre nós
— Para quê mais os lençóis?...


por Djalma Filho
fotografia de autor desconhecido

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Eclipse


Vem
menina vadia
te darei o meu dia
te farei sol nascer

Vem
menina moleca
te farei uma festa
te darei meu prazer

Vem
menina dengosa
te encantarei formosa
te enfeitarei com meu ser

Vem em ti
todas as meninas carentes
todas as mulheres santas
todos os amores proibidos
todas amantes desvairadas

Dispa
em definitivo teus pudores
deflore toda tua nudez
que arde... agora afoita
em avalanche de néctar

Abrace-me
sem culpas nem escrúpulos
penetre nessa loucura
que arde... agora erecto
vermelho a te querer

Fique-me
em eclipse... em
superposições de sóis
querendo e ardendo
definitivamente nós!!!

por Djalma Filho
fotografia de Poluyanenko Alexey