domingo, 6 de junho de 2010

Poemas para a amiga (Fragmento 8)


Contemplo agora
o leito que vazio
se contempla.
Contemplo agora
o leito que vazio
em mim se estende
e se me aproximo
existe qualquer coisa
trescalando aroma em mim.

Onde o teu corpo, amante-amiga,
onde o carinho
que compungido em recebia
e aquela forma que tranquila
ainda ontem descobrias?

Agora eu te diria
o quanto te agradeço o corpo teu
se o me dás ou se o me tomas,
e o recolhendo em mim,
em mim me vais colhendo,
como eu que tomo em ti
o que de ti me vais doando.

Eu muito te agradeço este teu corpo
quando nos leitos o estendias e o me davas,
às vezes, temerosa,
e, ofegante, às vezes,
e te agradeço ainda aquele instante (o percebeste)
em que extasiado ao contemplá-lo
em mim me conturbei
― (o percebeste) me aguardaste
e nos olhos te guardei.

Eu muito te agradeço, amante-amiga,
este teu corpo que com fúria eu possuía,
corpo que eu mais amava
quanto mais o via,
pequeno e manso enigma
que eu decifrei como podia.

Agora eu te diria
o que não soubeste
e nunca o saberias:
o que naquele instante eu te ofertava
nunca a mim eu já doara
e nunca o doaria.

Nele eu fui pousar
quando cansado e dúbio,
dele eu fui tomar
quando ofegante e rubro,
dele e nele eu revivia
e foi por ele que eu senti
a solidão, e o amor
que em mim havia.

Teu corpo quando amava
me excedia,
e me excedendo
com o amor foi me envolvendo,
e nesse amor absorvente
de tal forma absorvendo,
que agora que o não tenho
não sei como permaneço nesta ausência
em que tuas formas se envolveram,
tanto o amor
e a forma do teu corpo
no meu corpo se inscreveram.

por Affonso Romano de Sant’Anna
fotografia de Aleksandr Zhernosek

domingo, 30 de maio de 2010

Luandino


Luandino apalpa-a com dedos lassos,
Frouxos.
Toca-a como se num receio.

Parece que ele afaga a testa de um velho:
O côncavo da mão a recusar o bico do seu seio.

E ela o que quer é sexo.
Sexo, sem denguices nem rodeios.

Encosta-se nele.
Sente-o todo no vestido fresco.

Mater desejosa, roça-se.
Beija-lhe cada mamilo.
Morde-o.

Virgem arrependida, Luandino…

Ela a ganhar vantagem.
Ela a lamber-lhe o sexo.
Ela a chupá-lo.

Luandino e ela
Ela e Luandino…

por Maria de Fátima
fotografia de Def_Иgo

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Inocência


Sei que não é amor,
mas embrulhas os sentidos em gestos coloridos.
O teu sorriso troça da tristeza,
arranca o meu entre a provocação e a a candura.
Fico na expectativa do teu toque...
da tua timidez,
da quase juvenil carícia
na mescla sensual de que a revestes.

Sei que não é amor
mas atreves-te a quebrar tabus,
quando me desejas
me provocas
me queres de uma maneira que é só tua.

Sei que não é amor.
Nem mesmo é paixão.
Mas a loucura partilhada dos sentidos,
existe no olhar trocado.
Sei que me perco nos beijos ora vorazes, ora subtis,
no abraço carente que me desnuda aos poucos.
Brincamos sem pudor
carentes desse amplexo desejado.
E embarcamos numa viagem feita de um desejo duro mas doce.
Nunca nos falta o riso
rolando como pérola.

Sei que não é amor
mas partilhas comigo um arco íris de emoções...
E o teu amplexo é forte e orvalhado de desejo.

Sôfrega é a satisfação linear,
sem perguntas, sem noites de espera,
sem algemas a roerem esfomeadas.

O corpo é um abrigo em que se esconde a alma.

Sei que não é amor
nem mesmo é paixão.
É talvez um não sei quê
que vai e vem
e deixa a vida intacta, virgem... à espera.

por Margarida Piloto Garcia
fotografia de Tsifrolyub

domingo, 18 de abril de 2010

A tua boca


Vês aqueles dois no espelho?
Somos nós,
o cheiro já a misturar-se,
a pele a fundir-se,
as mãos a conquistarem-se
mutuamente.

A tua boca...
declara-se à nuca,
mas eu nem escuto.
Totalmente fascinada
pela onda de calor
que me excita ainda mais
e faz com que eu me vire.

Te olhe nos olhos,
sorria
e seja agora
a minha boca
a deliciar-se com a tua.

Depois, encosto-me
nas almofadas
e
sinto que ela
(a tua boca)
me segue.

escrito e dedicado por uma amiga
fotografia de Matteo Bertolio

quinta-feira, 25 de março de 2010

Escrevo-te


Escrevo-te:
mais uma carta de paixão.
Conto-te do desejo,
do incontornável calor
do teu corpo e do meu,
da saudade vincada de ti,
da cama, do suor, do orgasmo.

É: uma carta de paixão
(esta), a que te escrevo,
com palavras que escorrem
no envelope.

Vem hoje;
para que eu me venha, também.

Por Paula Raposo
fotografia de autor desconhecido


Tomei a liberdade de atribuir um título ao poema.
Espero que a autora me corrija caso tenha sido outra a sua escolha.

domingo, 21 de março de 2010

O meu desejo


A tua mão continua
pousada na curva
do meu ventre.

A palma da minha
toca-a levemente.

Confortável,
puxo-a
até tocares no
meu sexo.

Sinto-a a abrir-se,
pressiono-a
gentilmente.

Sinto-a a deslizar
ainda mais,
a procurar-me,
a encontrar
a minha vontade.

Todo o meu corpo se contrai,
quando a tua língua
me deseja
também.

“Não, não vou gritar”
o meu último pensamento
coerente,
antes de gritar
bem alto.

Escrito e dedicado por uma leitora
fotografia de autor desconhecido

quinta-feira, 4 de março de 2010

Moça ou Receita de sorvete de abacaxi com leite condensado


Lambo os dedos de Moça
um a um, gozo supremo
êxtase máximo que me chega
pelos dedos
Medos...
fiquem todos lá fora, acorrentados
pois agora meu corpo é Moça
é leite condensado
mamilos respingados em cremes...
E vem...
e gemes...
gemes na loucura melecada
gemes na aventura inventada
misturando gotas de suor
ao leite
Roças...
roças tua língua nessa moça
cheia de Moça
que se faz sorvete em tua boca
mesclando leites
deleites

E o ápice
tem cheiro de abacaxi...

por Isabel Machado
fotografia de Catherine Berger