sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Hotel do tempo


Tua nudez branca
exposta ao filtro de luz
da cortina de gaze.

Quarto clássico de mulher,
ambiência mítica
de mãe e sombras
ritmo de relógio na sala de jantar.

Cama larga das cambraias
alvices que se misturam
com teu corpo de mulher.

Bordados e anagramas,
pequenos quadros e bibelots,
móveis de madeira negra,
paredes de tom terroso,
piso persa e poeiras centenárias
dos tempos
nos interstícios
das tábuas corridas.

Repousas nua,
sobre o colchão dos tempos.

Repousas sobre os panos
tua beleza antiga,
tua alvura epidérmica.

Ressonas sonho
de gozo adormecido.

Contrastam...

Teus pentelhos escuros,
ralos e obscenos,
e os cabelos finos
ao ritmo da brisa,
mansa,
que adentra pela fresta
da veneziana
entreaberta.

Tuas pernas alvas
em relaxamento cósmico,
uma dobrada em ângulo
agudo para o tecto alto.

Teus olhos,
ora entreabertos,
fitando terrosos, enigmáticos
em suas transparências.

Como se assistissem,
de longe, a mística cena,
do amante recostado,
numa bergère,
olhos ao vento,
a refolhar gravuras antigas
numa edição ocre, perdida,
achada nas estantes do acaso.

Tua nudez branca
espalhada na cambraia do tempo.

Perna em ângulo,
pendular em seu ir e vir.
Olhar perdido ao acaso
de encontrar o amante
ora entretido, distante,
num estelar comprimento,
que de repente pode ser nada.

Tua pele branca
tua perna que balança.

Tua boceta molhada,
ainda, do último gozo.

O relaxamento despudorado
da cumplicidade.
O olhar de pálpebras ao meio
a percorrer o quarto.

Cheiro acre de sexo,
da mistura de todos humores:
porra, gozo, água, suor, saliva,
lágrimas e sangue.

Miscigenam-se homem-mulher
na atmosfera amarela
do fim de tarde.

Brisa marinha
traz o sol do crepúsculo
na janela litorânea.

Olhos e sabores
recheiam as sensações
vívidas da tarde.

Os últimos raios ocidentais
reflectidos nas águas da enseada.

A maresia dos cheiros
afasta as cortinas
do último ocaso meridional.

O amante percebe
no sabor do amontillado,
sorvido do cristal,
a necessidade cósmica
da amante receptiva.

A tua pele branca,
despida na noite.
O silêncio tomado
mas pleno de sentido.

A taça repousada,
o vinho dos desejos,
O abat-jour imprimindo
novas sombras
nas paredes da alcova.

Tua pele branca
em imperceptível fremir,
pulsa sobre os panos brancos.

A língua que escolhe um fio
e segue o caminho da noite
no hotel do tempo.

por CAlex Fagundes
fotografia de Lyalka

8 comentários:

Marta disse...

A noite para se amar, brincando com a luz desse desejo que se espalha pela alcova...
Nunca a brancura da pele se poderá confundir com os lençois, neles se entranhará o cheiro do amor saciado...
Surpreendente, Pedro
Beijos e abraços
Marta

cassamia disse...

que delicioso, que hora demorada e suave, que descer de noite tão delicioso!

Gabrielle disse...

janelas abertas para o (a)mar...
envolvência, sensualidade, sexualidade latente,

peças de um puzzle humano,
corpos, odores, deguste dos sentidos, néctares (sagrados?)

cumplicidade inebriante, paixão, tesão, arrebatamento
- viagem pelos sentidos

ou a perfeição de momentos únicos, intensos e irrepetíveis!

Ana disse...

É ao entardecer que os corpos se unem. É no olhar sobre o universo, sua cor de fogo ardente, em que Sol se deita sobre o mar, que a sede da paixão desperta ....
Um beijo
Ana

Pedro M disse...

mmm Marta...

e a pele terá sempre o sabor a sal que nos tenta e seduz.

Um beijo

Pedro M disse...

mmm Cassamia

um descer de noite que se prolonga, na frescura do entardecer... no calor dos corpos...

Um beijo

Pedro M disse...

mmm Gabrielle...

ainda bem que são imperfeitos...
irrepetíveis...
não monótonos...
para que a busca da perfeição se repita todas as noites :-)

Um beijo

Pedro M disse...

mmm Ana...

e como o desejo de a saciar é tão grande...

Um beijo