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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Os silêncios da fala

São tantos
os silêncios da fala

De sede
De saliva
De suor

Silêncios de silex
no corpo do silêncio
Silêncios de vento
de mar
e de torpor

De amor

Depois, há as jarras
com rosas de silêncio

Os gemidos
nas camas

As ancas

O sabor

O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor.

por Maria Teresa Horta
fotografia de autor desconhecido
(sugestão de uma leitora anónima)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Antecipação


Entreabro as minhas
coxas
no início dos teus beijos

imagino as tuas
pernas
guiadas pelo desejo

oiço baixo o teu
gemido
calado pelos meus dentes

imagino a tua boca
rasgada
sobre o meu ventre

por Maria Teresa Horta
fotografia de autor desconhecido

terça-feira, 17 de março de 2015

Segredo


Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar


por Maria Teresa Horta
fotografia de autor desconhecido

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Novembro segundo Simon Bolz e Maria Teresa Horta


Antecipação

Entreabro as minhas
coxas
no início dos teus beijos

imagino as tuas
pernas
guidas pelo desejo

oiço baixo o teu
gemido
calado pelos meus dentes

imagino a tua boca
rasgada
sobre o meu ventre


por Maria Teresa Horta
fotografia de Simon Bolz

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Troco


Eu troco
ponho e disponho
da diferença do meu corpo

no agasalho da nuca
a penumbra do pescoço

Ombros a meio divididos
onde as asas já despontam
para a ternura das nádegas

fazendo tudo
o que contam

Dispo
troco digo e ponho
os dedos no espaço incerto

onde a língua toma o gosto
do que fica a descoberto


por Maria Teresa Horta,
fotografia de autor desconhecido

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Arrebatada


Eu não quero a ternura
quero o fogo
a chama da loucura desatada

quero a febre dos sentidos
e o desejo
o tumulto da paixão arrebatada

Eu não quero só o olhar
quero o corpo
abismo de navalha que nos mata

quero o cume da avidez
e do delírio
sequiosa faminta apaixonada

Eu não quero o deleite
do amor
quero tudo o que é voraz

Eu quero a lava


por Maria Teresa Horta
fotografia de Garm

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Modo de amar II


Pôr-me-ás de borco,
assim inclinada…

a nuca a descoberto,
o corpo em movimento…

a testa a tocar
a almofada,
que os cabelos afloram,
tempo a tempo…

Pôr-me-ás de borco;
Digo:
ajoelhada…

as pernas longas
firmadas no lençol…

e não há nada, meu amor,
já nada, que não façamos como quem consome…

(Pôr-me-ás de borco,
assim inclinada…

os meus seios pendentes
nas tuas mãos fechadas.)


por Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
fotografia de Gordon Denman

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Carmim


Não te digo tanto quanto
quero
nem te faço tudo quanto sonho

Não me basto junto a ti
secreta
quanto me entrego e a ti me oponho

Não te conto sequer
porque imagino
ser o desejo o carmim da boca

Morro de sede perto dos teus lábios
de ti quero ir bebendo
e ficar louca


por Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
fotografia de autor desconhecido

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Vertigem


Quando sob o meu
está o teu corpo
e eu nado dentro
do desejo e enlaço

os teus ombros as ancas
e o dorso
enquanto o espasmo se faz
num outro abraço

Desprendo a boca
depois
no grito solto

mordo-te os pulsos
ambos
no orgasmo

volto ao de cima
da água
do meu gosto

Bebo-te a vertigem
e em seguida o hálito.


por Maria Teresa Horta
fotografia de autor desconhecido

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Poema ao desejo



Empurra a tua espada
no meu ventre
enterra-a devagar até ao cimo

Que eu sinta de ti
a queimadura
e a tua mordedura nos meus rins

Deixa depois que a tua boca
desça
e me contorne as pernas de doçura

Ó meu amor a tua língua
prende
aquilo que desprende da loucura

por Maria Teresa Horta
fotografia de autor desconhecido

terça-feira, 15 de maio de 2012

As nossas madrugadas

Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito

pois suspeitas

que com ele me visto e me
defendo

É raiva
então ciume
a tua boca

é dor e não
queixume
a tua espada

é rede a tua língua
em sua teia

é vício as palavras
com que falas

E tomas-me de foça
não o sendo
e deixo que o meu ventre
se trespasse

E queres-me de amor
e dás-me o tempo

a trégua
a entrega
e o disfarce

E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lenços que desfazes
na pressa de teres o que só sentes
e possuires de mim o que não sabes

Despertas-me de noite
com o teu corpo

tiras-me do sono
onde resvalo

e eu pouco a pouco
vou repelindo a noite

e tu dentro de mim
vais descobrindo vales.


por Maria Teresa Horta
fotografia de Mikhail Vjuzhanin

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Gozo XII


São tuas as pálpebras
dos meus dias

tal como a laranja do lago
estagnado
é a lua do lago ao meio dia
quando o sol dos ombros está
rasgado

São teus os cílios
que as noites utilizam
é tua a saliva dos meus
braços

é teu o cacto que no ventre
incerto
debruça levar os seus
orgasmos

Não tenho mais que te dizer
das coisas
que tudo o mais te faço eu
deitada

enquanto sentes que o teu corpo
cresce
por dentro do mundo
na minha mão fechada

por Maria Teresa Horta
fotografia de autor desconhecido

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Gozo XI


Conduzes na saliva
um candelabro aceso

um chicote de gozo
nas palavras

E a seda do meu corpo
já te cede
neste odor de borco em que me abres

Sedenta e sequiosa
vou sabendo
a demorar o tempo que se espraia
ao longo dos flancos que vou tendo:

as tuas pernas
vezes teu ventre

A tua língua
vezes os teus dentes

na pressa veloz com que me rasgas

por Maria Teresa Horta
fotografia de Payaso

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Gozo X


São de alumínio
os flancos
e de feltro a língua

de felpa ou seda
a abertura incerta
que cede breve a humidade
esguia
presa no quente do interior
da pedra

Ou musgo doce
de haste sempre dura
de onde pendem seus dois mansos frutos
que a boca aflora e os dentes prendem
a tatear-lhes
o hálito e o suco

por Maria Teresa Horta
fotografia de Garm

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Gozo IX


Ondula mansamente a tua língua
de saliva tirando
toda a roupa...

já breves vêm os dias
dentro de noites já
poucas.

Que resta do nosso
gozo
se parares de me beijar?

Oh meu amor...
devagar...
até que eu fique louca!

Depois... não vejas o mar
afogado em minha
boca!

por Maria Teresa Horta
fotografia de autor desconhecido

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Gozo VIII


Em cada canal
a sua veia

o veio que entumece
no fundo da sua teia

Em cada vento
o seu peixe
no tempo que a água tenha

sedosa na sua sede
viciosa em sua esteira

Da seda
o tacto e o suco
dos lábios à sua beira

como se fosse um beiral
do corpo
p'ra língua inteira

ou o lugar para guardar
o punhal
que se queira

Em cada punho
o seu ócio

um cinzel
de lisura

com a doçura do pranto
da prata e bronze
a secura

O travesseiro não apoia
as pernas já afastadas
mas ajusta as ancas dadas

Escalada
que se empreende na pele das tuas nádegas

Em cada corpo há o tempo
no gozo da sua adaga

Mas só no teu há o espasmo
com que o teu pénis
me alaga

por Maria Teresa Horta
fotografia de Garm

domingo, 27 de novembro de 2011

Gozo VII


São as tuas nádegas
na curva dos meus dedos

as tuas pernas
atentas e curvadas

O cravo — o crivo
sabor da madrugada
no manso odor do mar das tuas
espáduas

E se soergo com as mãos
as tuas coxas
e acerto o corpo no calor
das vagas

logo me vergas

e és tu então
que tens os dedos
agora
em minha nádegas

por Maria Teresa Horta
fotografia de Ruslan Lobanov

sábado, 12 de novembro de 2011

Gozo VI


São de bronze
os palácios do teu sangue

de cristal absorto
ensimesmado

São de esperma
os rubis que tens no corpo
a crescerem-te no ventre
ao acaso

São de vento — são de vidro
são de vinho
os líquidos silêncios dos teus olhos

as rutilas esmeraldas que
sozinhas
ferem de verde aquilo que tu escolhes

São cintilantes grutas
que germinam
na obscura teia dos teus lábios

o hálito das mãos
a língua — as veias

São de cúpulas crisálidas
são de areia

São de brandas catedrais
que desnorteiam

(São de cúpulas crisálidas
são de areia)

na minha vulva
o gosto dos teus espasmos

por Maria Teresa Horta
fotografia de Garm

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Gozo V


Vigilante a crueldade
no meu ventre

A fenda atenta
e voraz
que devora o que é
dormente

a febre que a boca
empresta
a vela que empurra o vento

a vara que fende
a carne

a crueldade que entende
o grito sobre o orgasmo
que me prende e me desprende

por Maria Teresa Horta
fotografia de autor desconhecido

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Gozo IV


Que tenhas de mim
o contorno incerto
acertado nas linhas do
teu corpo

os dentes nos lóbulos e no pescoço
os lábios
a língua a cobrirem os ombros

por Maria Teresa Horta
fotografia de autor desconhecido