segunda-feira, 7 de março de 2011

Chuva


chove
lá fora
me fode
agora
com amor
sem pudor
barulho que cai
a gota me atrai
molhados
chovendo
pelo prazer
apaixonados
continue a fazer

e chove
trovão
e fode
paixão
e chove
na rua
me fode
estou nua

e chove
tira a meia
e fode
me despenteia
e chove molhado
seu pé está gelado
chega de prosa
você me aquece
vai, enlouquece
vem e goza

por Liz Christine
fotografia de Damon Loble

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Trova do meu corpo


Para ti
A minha cor púrpura da vida,
deleite de te ter longínquo ou não, o teu toque

De ti
O raiar das estranhas noites onde as sílabas que os meus lábios desenham,
rubram no espelho o vácuo da tua imagem

Para ti
Os meus seios de camélias amarelas, e a trova do meu corpo nu

De ti
Rasgo de vontade que te conheço,
de segurar os meus cabelos
e arrastá-los até onde o meu rosto se possa deitar

Para ti
A génese do amor mais profeta,
na linguagem libertina do desejo
e da entrega do teu olhar vencido

De ti
Os afectos obscenos que ondeiam a minha libido
e o teu sorriso narcísico de perdão,
quando me lanças na culpa,
fazendo de mim pérfida mas sempre amante

Para ti
Não cesso o sonho de alarmos o cosmos de mãos dadas

De ti
A rendição, sem condição,
para que te sorva no ímpeto da madrugada
desvirginando o meu ventre

Para ti
O estremecer das palavras
que as nossas bocas emudecem!

por Ausenda Hilário
fotografia de Valeriy Dondick

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Sei de cor


Sei de cor
Cada traço da tua pele
Cada sabor expelido
Nos espasmos enfurecidos
Das noites ardentes de amor
Sinto
A chama que irradia em ti
Quando encostas
Teu corpo no meu
E me acaricias lentamente
Grito
Gemidos loucos de prazer
Nessa dança compulsiva
Com que me possuis
E te deitas sobre mim
Abraço teu corpo
Absorvendo do suor escorrido
Na fúria do desejo
Saciado em catadupa
Entre jorros de prazer

por Maria Escritos
fotografia de Ladymartist (Maria Andriichuk)

domingo, 30 de janeiro de 2011

Lettera amorosa


Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

por Eugénio de Andrade
fotografia de Vlad Gansovsky

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Oferenda


Ofereço-te a minha boca,
E o rijo seio que tenho
Oculto em brancas rendas.
Atrevido! Para ti não liberei
O restante do meu corpo...

Por que não começas
Lentamente a conquistar
Cada pedaço de mim?
Sou terra desconhecida
De montes e matas fechadas,

Curvas sinuosas e perigosas
Por onde vivem a caminhar
As feras dos meus desejos.
Afoito, já queres ir à caverna
Sem antes reconhecê-la...

Não temes as armadilhas?
Nela podes ficar retido,
Perdido, sem tino nem rumo,
Como num labirinto de aço
Atraído pelo ímã que ela possui.

Por agora deves te contentar
Com a oferenda do começo,
Pois o melhor do banquete
Vem depois que se come
O prato servido de entrada...

por Maria Hilda de Jesus Alão
fotografia de Dmitriy Besov

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O momento em que o desejo foi morto


Encontraram-se.
Olharam-se.
E quase sem proferir uma palavra, suas bocas selaram num beijo há muito desejado.
Um beijo forte, apertado, intenso...
Um beijo que parecia não ter fim, e eles desejavam que assim fosse...
Tentaram parar... impossível. Tinham que continuar. As suas bocas clamavam uma pela outra, as mãos dele buscavam o corpo dela, cheio de desejo, descobrindo todos os cantos secretos que ela tinha.
E ela... ela entregava-se com a mesma vontade, encostando o seu corpo ao dele, sugando cada minuto como se fosse o último.
Ambos tremiam, tremiam de prazer...
Era muito forte o que os unia nesse momento... momento único... momento intenso... momento sublime.
Nada mais existia para além deles ali...abraçados num longo beijo...
As suas respirações estavam aceleradas e rapidamente tinham que matar o desejo.
Encontrado o local, o tempo parou, o sol brilhou, e de novo o beijo recomeçou...
As roupas espalhadas pelo chão, a cama, dois corpos nela deitados, banhados em suor, matando o desejo...
Não falavam, apenas se beijavam. Com tal ânsia, com tal vontade, com tal desejo... parecia que o mundo iria acabar no momento seguinte... era tal a intensidade com que faziam amor... Sim! Só podia ser amor!...
E repetiram mais uma, e mais outra vez, e mais outra vez, até não terem força para continuar.
E nesse momento, o desejo foi morto...

por Carla Oliveira
fotografia de Gordon Denman

Este texto foi-me enviado pela autora.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Mãos de desejo


Mãos embriagadas de desejo
Procuram as portas do prazer
Para escancará-las à luz
Que brilha na aurora do leito,

Quando os amantes acordam
Com olhos cheios de estrelas
Fixados no céu azul.
Sobre a relva, entre eucaliptos,

As mãos parecem cântaros
Saciando a sede dos corpos,
Ávidos de água bendita
Que lhes brota nas bocas

Quando na relva se unem.
E embotando os sentidos,
Fundem-se em peça única
Com a seiva que gera vida,

Vinda de cimbalístico orgasmo
Vibrando mais que campanários,
Lançam no ar os milhões de notas
Que compõem a ária do amor

Que só as almas podem cantar
Em momento tão sublime,
Os versos nascidos instantâneos
Durante o acto de amar.

por Maria Hilda de Jesus Alão
fotografia de Tolik Dydnik